VHS no Brasil: Da revolução das videolocadoras ao fim de uma era

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Durante as décadas de 1980 e 1990, poucas tecnologias transformaram tanto a relação dos brasileiros com o cinema quanto o videocassete. O VHS não apenas levou os filmes para dentro das casas, mas também criou uma nova maneira de consumir, colecionar e descobrir histórias. Antes do streaming, era nas fitas e nas videolocadoras que muita gente encontrava seus filmes favoritos.

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A chegada de uma nova era

O videocassete começou a ganhar espaço no Brasil no final dos anos 1970 e, principalmente, ao longo dos anos 1980. No início, era um aparelho caro e considerado artigo de luxo. Com o passar do tempo, porém, tornou-se cada vez mais acessível e passou a fazer parte da rotina de muitas famílias.

A grande novidade era a possibilidade de gravar programas da televisão e, principalmente, assistir a filmes quando quisesse. Pela primeira vez, o espectador começava a ter um controle muito maior sobre sua própria programação.

O VHS também mudou a experiência de rever um filme. Era possível pausar, voltar uma cena, avançar trechos e assistir novamente àquela produção que havia sido exibida no cinema ou na televisão.

O fenômeno das videolocadoras

Foi nas videolocadoras que o VHS encontrou um de seus maiores símbolos.

Durante os anos 1980 e 1990, estabelecimentos especializados em aluguel de fitas se espalharam pelas cidades brasileiras. Ir à videolocadora para escolher o filme do fim de semana tornou-se um programa familiar.

As prateleiras eram verdadeiros catálogos físicos de cinema. Capas coloridas, pôsteres, cartazes e displays disputavam a atenção dos clientes. Muitas vezes, a escolha de um filme começava simplesmente pela arte da capa.

Para uma geração inteira, a videolocadora também foi uma espécie de escola de cinema. Era ali que se descobriam clássicos, filmes de terror, ficção científica, ação, comédias, produções estrangeiras e títulos que dificilmente chegavam à programação das emissoras de televisão.

O VHS e a cultura pop

O formato também ajudou a fortalecer o mercado de filmes de catálogo e produções que não permaneciam muito tempo nos cinemas.

Filmes como De Volta para o Futuro, Os Goonies, Rambo, O Exterminador do Futuro, Predador, Indiana Jones, Batman e tantos outros ganharam uma segunda vida nas locadoras e nas salas de estar.

Para os fãs de terror, o VHS teve importância ainda maior. Muitas produções que circulavam pouco nos cinemas encontravam nas fitas um público fiel. O aluguel de filmes de terror tornou-se um ritual para adolescentes e jovens, ajudando a criar uma geração de cinéfilos apaixonados pelo gênero.

E havia ainda um detalhe inesquecível: a famosa obrigação de rebobinar a fita antes de devolvê-la.

O aviso “Seja gentil, rebobine a fita” virou praticamente um símbolo daquela época.

O nascimento do colecionador

Com o crescimento do mercado de home video, comprar filmes também passou a fazer parte da cultura do consumidor brasileiro.

Ter uma pequena coleção de VHS em casa significava possuir uma biblioteca particular de cinema. Algumas fitas eram guardadas como verdadeiros tesouros, principalmente edições especiais, filmes difíceis de encontrar e títulos favoritos.

As capas também se tornaram parte da memória afetiva. Para muitos fãs, a imagem de uma fita VHS sendo retirada de sua caixa, colocada no aparelho e exibida na televisão é tão marcante quanto o próprio filme.

A chegada do DVD

No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o VHS começou a enfrentar seu maior concorrente: o DVD.

Com imagem e som de melhor qualidade, discos menores, menus interativos, legendas e diversos conteúdos extras, o novo formato rapidamente conquistou o público.

O DVD representava uma mudança tecnológica evidente. As fitas eram grandes, frágeis e perdiam qualidade com o uso. O disco parecia mais moderno, prático e resistente.

Pouco a pouco, as videolocadoras começaram a substituir suas prateleiras de VHS por DVDs.

O processo foi gradual, mas irreversível.

O fim das videolocadoras

A decadência do VHS também marcou o início do desaparecimento de um dos lugares mais queridos pelos cinéfilos.

As videolocadoras passaram a enfrentar a concorrência dos DVDs, depois dos serviços de aluguel e venda digital e, finalmente, do streaming.

Com a popularização da internet de alta velocidade e de plataformas como Netflix, o modelo tradicional de sair de casa para escolher um filme e devolvê-lo no dia seguinte perdeu espaço.

As últimas grandes videolocadoras brasileiras foram fechando suas portas, enquanto milhares de fitas VHS acabaram esquecidas em caixas, armários e depósitos.

O VHS nunca desapareceu completamente

Apesar de ter sido praticamente substituído pelos formatos digitais, o VHS voltou a despertar interesse entre colecionadores.

Hoje, as fitas representam muito mais do que uma tecnologia ultrapassada. Elas são objetos de memória e carregam parte da história da cultura pop brasileira.

Capas antigas, comerciais gravados em fitas, trailers, dublagens e versões de filmes lançadas exclusivamente em VHS passaram a ser procurados por colecionadores e nostálgicos.

Para uma nova geração, o VHS pode parecer estranho e limitado. Para quem viveu aquela época, entretanto, ele representa uma sensação difícil de reproduzir: a expectativa de chegar à videolocadora, escolher um filme, levar a fita para casa e transformar uma noite comum em uma sessão de cinema.

Uma tecnologia que mudou a maneira de assistir a filmes

O VHS pode ter sido derrotado pelo DVD, pelo Blu-ray e, posteriormente, pelo streaming. Mas sua importância para a história do cinema doméstico é inegável.

Ele ajudou a transformar o filme em um produto que podia ser alugado, comprado, colecionado e reassistido inúmeras vezes. Criou hábitos, fortaleceu gêneros cinematográficos, impulsionou o mercado de home video e marcou profundamente a cultura pop brasileira.

Hoje, quando praticamente qualquer filme está a poucos cliques de distância, talvez seja difícil imaginar o valor que uma única fita podia ter.

Mas basta encontrar uma velha caixa de VHS, ouvir o barulho do videocassete engolindo a fita e lembrar daquela imagem cheia de ruídos na televisão para perceber que, para muita gente, o VHS não era apenas um formato.

Era uma experiência. E uma experiência que marcou para sempre a história do cinema em casa no Brasil.

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