Imagine um filme tão improvável que quase nunca chegou às telas…
Hoje, quando pensamos em O Nome da Rosa (1986), lembramos de um dos grandes clássicos do cinema investigativo medieval. Mas poucos sabem que sua história começou cercada de obstáculos, apostas arriscadas e uma boa dose de teimosia.
Tudo começou quando o diretor Jean-Jacques Annaud decidiu escalar Sean Connery para viver o monge-detetive William de Baskerville. Parece uma escolha óbvia hoje, mas na época Connery era visto por Hollywood como um astro em declínio. A reação foi imediata: a Columbia Pictures retirou seu apoio financeiro do projeto.
Para muitos, aquilo seria o fim. Mas Annaud se recusou a desistir.
O produtor Bernd Eichinger acreditava tanto no filme que tomou uma atitude extrema: vendeu o próprio prédio de sua empresa em Munique para ajudar a financiar a produção. Era uma aposta gigantesca em uma história ambientada em um mosteiro medieval do século XIV.
E a busca pela autenticidade foi levada ao limite.
Annaud não queria rostos perfeitos de cinema. Queria pessoas que parecessem ter saído diretamente da Idade Média. Anos depois, ele admitiria que procurou deliberadamente “os atores mais feios” que conseguiu encontrar. O resultado foi um elenco de rostos inesquecíveis, que ajudou a criar uma atmosfera única.
Entre eles estava Ron Perlman, que interpretou o misterioso Salvatore. Tão dedicado ao papel que estudou versões do romance em seis idiomas diferentes para reproduzir a fala confusa e multicultural do personagem. Já Christian Slater, então com apenas 17 anos, viveu sua primeira grande experiência cinematográfica ao lado de Connery, que acabou se tornando uma espécie de mentor informal para os colegas mais jovens.
Enquanto isso, os desafios continuavam.
A produção ergueu um dos maiores cenários ao ar livre construídos na Europa desde Cleópatra (1963). Na Alemanha, durante as filmagens na histórica Abadia de Eberbach, um problema inesperado surgiu: o ruído constante de aviões obrigou a equipe a redublar praticamente todos os diálogos na pós-produção.
O perfeccionismo era tão grande que até os porcos utilizados nas cenas precisaram ser pintados de preto, já que as raças modernas de pele rosada não combinavam com o visual medieval que Annaud queria recriar. E quando uma página de um manuscrito artesanal desapareceu misteriosamente do set, a equipe simplesmente produziu outra em tempo recorde.
Nem tudo, porém, era harmonia nos bastidores.
F. Murray Abraham, recém-consagrado com o Oscar por Amadeus, tinha fama de ser difícil de lidar. Em contraste, Sean Connery conquistou a admiração de todos pela disciplina e profissionalismo. Curiosamente, apenas um ano depois, ele ganharia seu próprio Oscar por Os Intocáveis.
Quando finalmente estreou, veio a maior ironia de todas.
Nos Estados Unidos, O Nome da Rosa foi um fracasso de bilheteria. Mas na Europa aconteceu exatamente o contrário. O filme se transformou em um fenômeno, arrecadando mais de 77 milhões de dólares ao redor do mundo e ajudando a revitalizar a carreira de Sean Connery.
Até mesmo Umberto Eco, autor do romance original, mudou de opinião com o tempo. Inicialmente crítico da adaptação, que comparou a um “sanduíche do qual tiraram tudo, exceto a alface”, acabou reconhecendo anos depois que o resultado era, sim, um bom filme.
Talvez seja por isso que O Nome da Rosa continue fascinando tantas pessoas décadas depois. Não apenas pela investigação, pelos mistérios ou pela atmosfera sombria, mas porque sua própria produção foi uma batalha épica. Um filme que sobreviveu à falta de dinheiro, aos conflitos, aos desafios técnicos e às previsões de fracasso para se tornar um clássico.
Às vezes, as melhores histórias não acontecem apenas diante das câmeras. Elas acontecem nos bastidores.
