Qual o problema do DCEU? 13

Muita gente se pergunta, inclusive esse que vos escreve, qual o problema que o universo cinematográfico da DC, ou DCEU (sigla em inglês para DC Expanded Universe) não se desenvolve maneira correta? A DC tem os super-heróis mais populares do universo das HQ, pra se ter uma ideia, o único herói da Marvel que chega perto da popularidade de Superman e do Batman é o Homem-Aranha, a Mulher Maravilha está um pouco atrás dos três citados mas não muito, só que não consegue desenvolver o seu universo cinematográfico de maneira coesa e que cada filme não seja cercado por uma enxurrada de rumores e polêmicas.

Qual o problema do DCEU? 14

A Warner, dona da DC, é um estúdio que frequentemente intervém nos filmes e nunca dá certo. Isso é um fato e que não entendo como a alta cúpula do estúdio ainda não entendeu que as suas intervenções não surtiram o efeito desejado, ao contrário, sempre deu em resultados ruins. Podemos citar diversos casos, como na franquia original do Superman em que Richard Donner, foi chutado após o épico trabalho em “Superman” (1978), ele estava produzindo “Superman” e “Superman 2” juntos mas o orçamento já estava estourando e a produtora o obrigou a lançar logo a primeira parte que foi um sucesso imediato e é até hoje um dos maiores, se não o maior clássico entre os filmes de super-heróis, “Superman 2” já estava 75% pronto, porém o estúdio
resolveu acrescentar humor e leveza à continuação, o motivo disso ninguém sabe, uma vez que “Superman” foi, a época do seu lançamento, um retumbante sucesso de crítica e público, chegando a ser o segundo filme em bilheteria no ano de 1978, o resultado da troca de diretor? “Superman 2” está muito abaixo do seu antecessor e em 2006 foi lançada a versão de Richard Donner para “Superman 2”.

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Mas não é que a Warner repetiu o mesmo erro na franquia do seu outro herói de maior popularidade? Tim Burton foi chamado para dirigir a franquia do Batman nos cinemas, com “Batman” (1989) e “Batman Returns” (1992), o diretor fez um excelente trabalho, algumas decisões questionáveis mas no final, o resultado foi muito bem aceito pela crítica e público. Mas quando Burton já trabalhava na continuação de “Returns”, o que a Warner fez? O mandou embora e trouxe Joel Schumacher para o seu lugar com a desculpa de amenizar o tom sombrio e trazer mais “graça” à franquia do Cruzado encapuzado mas por quê? Ninguém estava reclamando do tom dos filmes, ambos fizeram sucesso e resultado da troca do comando todos viram, dois filmes lamentáveis “Batman Forever” (1995) e “Batman & Robin” (1997) que quase sepultaram o gênero do filme de super-heróis. Daremos uma pausa nos filmes de heróis aqui para voltar no próximo parágrafo. As intervenções da Warner não ficam restritas aos filmes de super-heróis. O clássico de ficção científica “Blade Runner” (1982) teve inacreditáveis 8 versões por conta de cortes do estúdio na versão original, você só precisa assistir a “Final Cut” (2007). Outro exemplo da casa do Pernalonga se entrometendo nos filmes é com a adaptação do clássico “O Hobbit” de Tolkien que se transformou, desnecessariamente, em uma trilogia cinematográfica para o estúdio lucrar mais com a franquia de “O Senhor dos Anéis”, atitude equivocada, é um livro que não tinha a menor necessidade de ser adaptado para uma trilogia de filmes.

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Como não podia ser diferente, a intromissão da Warner reapareceu no DCEU. Zack Snyder foi escolhido para construir as bases de sustentação do universo cinematográfico da DC, após “Homem de Aço” (2013), Snyder começou a trabalhar no 2º filme do DCEU, “Batmam v Superman – A Origem da Justiça” (2016) e então reapareceu o dedo do estúdio. Snyder entregou o filme para ir aos cinemas com uma versão de 3 horas de duração e o estúdio, com a desculpa de poder exibir mais sessões do filme e assim poder lucrar mais, cortou o filme, a revelia do diretor, para uma versão com 151 minutos (2 horas e meia). O resultado foi desastroso, um corte feito por outra pessoa, que não o diretor, tornou a versão de cinema truncada, cansativa e incompleta, com cenas que não faziam muito sentido por terem sido visivelmente editadas. Não é possível que meia hora a mais no filme prejudicaria a arrecadação do filme, até porque, pra mim, a versão de cinema é bem mais cansativa que a versão “Ultimate” (com 30 minutos a mais), o resultado diso foi um filme extremamente questionado. Em “Esquadrão Suicida” (2016), novamente o estúdio interferiu e obrigou o diretor David Ayer a regravar cenas do filme no intuito de torná-lo mais “divertido” e menos sombrio, como resultado, mais um filme extremamente criticado, mesmo tendo uma bilheteria muito boa. Eis que chegamos ao ápice da intromissão e desumanidade da Warner, “Liga da Justiça” (2017), o filme que era para ser tido como o marco do gênero, o filme a ser usado como exemplo dali em diante por juntar pela primeira vez em live-action, a equipe de heróis mais popular dos quadrinhos. O que tivemos de realidade? Um fracasso retumbante, graças EXCLUSIVAMENTE à interferência, ingerência e desumanidade da Warner. Desde vazamentos a todo momento de cenas e fatos que aconteciam nas gravações, passando por declarações atrapalhadas na imprensa, pra dizer o mínimo, de Geoff Johns (naquele momento, CEO da DC Films), em que dizia que a DC era “alegre, divertida e colorida”, ao mesmo tempo que o diretor do filme, Zack Snyder, com um estilo completamente diferente daquilo, dirigia a produção, ao ponto mais alto da Warner se aproveitar de um drama pessoal vivido por Snyder (o suicídio da filha dele, Autumn) para despedi-lo da direção do filme e substituí-lo por um diretor com uma visão completamente diferente da de Snyder, Joss Whedon, para regravar algumas cenas e acrescentar piadas, diversão e interação entre os personagens, o resultado foi um filme insosso, com um material feito por Whedon de qualidade bastante duvidosa, inclusive reciclando piadas de “Vingadores” e “Vingadores: Era de Ultron”), com uma completa e vergonhosa desconstrução do personagem do Batman. Sem esquecermos, é lógico, do CGI medíocre. Por quê não despediram Snyder depois de ”Batman vs Superman” então? Era óbvio que 3 meses para modificar completamente o tom do filme não poderia sair coisa boa, sem mencionar a patética decisão do alto escalão da Warner de obrigar que o filme tivesse exatas 2 horas para poder ter mais sessões, como se isso fosse sinônimo que seria sucesso.

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A Warner é uma completa bagunça, todo mundo dá entrevista, cada qual diz uma coisa diferente. Se tem uma coisa que podemos tirar o chapéu para a Marvel, é o fato de centralizar as entrevistas e declarações sobre filmes vindouros na pessoa de Kevin Feige, CEO da Marvel Studios. Lá nenhum ator ou diretor ou quem quer que seja é autorizado a falar sobre projetos futuros ou em estágios iniciais da Marvel, só Feige pode. Os atores/atrizes só podem dar entrevistas sobre os filmes que estão trabalhando no momento, diretores e roteiristas idem. Já na DC Films, todo mundo fala, todo mundo dá opinião, é Geoff Johns reclamando na imprensa do tom que o diretor usou no filme, o CEO da Warner, Kevin Tsujihara, dizendo que quer que o filme da “Liga da Justiça” tenha 2 horas para ter mais sessões, é Henry Cavill dando opinião sobre qual o tom correto para o Superman, é Henry Cavill novamente dando entrevista sobre qual história do Azulão ele quer adaptar, tem Margot Robbie dando entrevista sobre ela fazer 3 ou 4 filmes spin-off da Arlequina, Margot de novo dizendo na imprensa como ela quer que sejam os filmes da Arlequina, além de Jared Leto dizendo na imprensa como deveria ser um filme com o Coringa dele, isso somente para citar uma minúscula parte das diversas declarações desorganizadas e fora de sintonia dadas quase que diariamente pela equipe da Warner/DC Films. A falta de cuidado é tanto que chegou a vazar que o CEO da Warner, Tsujihara, queria cortar a sequência “No Man’s Land” do filme da “Mulher Maravilha” (2017), a cena mais antológica da película e que só permaneceu por uma imposição da diretora Patty Jenkins, que chegou a ameaçar abandonar a direção se a sequência fosse mesmo cortada. Isso faz com que o estúdio fique desmoralizado e passe a imagem de desorganização.

A Warner/DC Films não tem um foco sobre quais filmes devem fazer primeiro, estão absolutamente perdidos. Em um momento que o DCEU passa por sérios questionamentos por parte da crítica, da mídia e dos fãs, o movimento mais óbvio seria lançar o filme solo do seu personagem mais rentável de todos, o Batman. Mas de fato concreto sobre o filme do Morcegão, é a mudança de diretor, sai Ben Affleck e entra Matt Reeves, descarte total do roteiro escrito por Ben Affleck e Matt Reeves entregou o roteiro pronto para a Warner, mais nenhuma notícia. Nem mesmo a confirmação se Ben Affleck permanece ou não como Batman, nós temos. O que de concreto que se tem é o início da escalação de atrizes para o filme das “Aves de Rapina”, é uma confirmação de um futuro filme sobre o relacionamento da Arlequina com o Coringa, a contratação da diretora Ava DuVernay para dirigir o filme dos “Novos Deuses”, o adiamento da sequência de “Esquadrão Suicida”, Geoff Johns escrevendo um roteiro para “Tropa dos Lanternas Verde” e o início das gravações de um filme de origem do Coringa que se passa fora do DCEU e terá outro ator, Joaquin Phoenix, que tem tudo para ser um filmaço mas é um filme completamente desnecessário e que ninguém pediu, que poderá trazer mais dor de cabeça ao estúdio com os fãs exigindo esse Coringa no lugar do existente no DCEU. Fala-se do planejamento invejável da Marvel que a DC não tem, isso é uma meia-verdade. De fato o MCU é muito bem planejado, entretanto, é bem mais fácil você planejar um universo cinematográfico com filmes padronizados, todos dentro de um mesmo formato, caso da Marvel, do que em um universo em que se respeite às características de cada herói, caso da DC. O que não significa que o estúdio não tenha o mínimo planejamento e nem prioridades. Cadê “Homem de Aço 2”? “The Batman”?

Entretanto, o universo cinematográfico da DC também tem coisas muito boas. “Mulher Maravilha” (2017) foi uma unanimidade, tanto de crítica como de público e revelou o carisma, talento e graciosidade de Gal Gadot, transformando-a na cara do DCEU. Temos atualmente 3 filmes do DCEU em produção e/ou pós-produção, “Wonder Woman 84”, a ser lanaçdo em novembro/2019, “Aquaman” que será lançado em novembro/2018 e “Shazam”, previsto para estrear em abril/2019. Ao que parece, os dois últimos não tiveram interferência do estúdio em sua produção, o que já é um ótimo sinal de que as coisas estão mudando um pouco após a compra da casa do Pernalonga pela AT&T.

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Acredito que, com uma boa dose de organização e prioridades, o DCEU tem tudo para render bons frutos, é inegável que ele tem uma boa base com “Homem de Aço”, “Batman vs Superman” e “Mulher Maravilha” e até mesmo o vazamento diário de informações secaram e a imprensa agora vive de rumores. Continuo dizendo, a prioridade máxima do estúdio deveria ser o filme solo do Batman, quase que uma certeza de sucesso pelo excelente diretor Matt Reeves. Não posso negar que fiquei empolgado com o que pode vir em “Aquaman”, “Shazam” e “Mulher Maravilha 84”, parecem sinais de bons ventos sobre a nossa amada DC. Aguardemos.

Texto do colunista Illo Schaun, nerd, advogado, legender nas horas vagas, roqueiro, leitor voraz de HQ e livros, viciado em filmes e séries, sonha em ser o Batman e coleciona diversas versões de batmóveis.
Twitter: @illods