Inclusivo, programa de incentivo à leitura reúne grupo de autores consagrados que leva contação de histórias até o público infantojuvenil por meio da tecnologia

 

O Bibliotecarte é um projeto de incentivo à leitura inclusivo e democrático desenvolvido em bibliotecas solidárias do Paraná, Santa Catarina e de São Paulo. Seu principal objetivo é formar leitores, por meio de feiras literárias, rodas de leitura, contação de histórias, conversa com autores e troca de livros. Mas, por razões sociais e culturais, muitas vezes os livros não estão ao alcance de todos.

Bibliotecas em áreas de vulnerabilidade social foram afetadas durante a pandemia. Sem livros, nem alunos, foi impossível seguir com o projeto de realizar as rodas de leitura. Nada que impedisse o Bibliotecarte de se reinventar, como um bom livro que se molda à imaginação de uma criança.

“A solução foi publicar um e-book com perfis de autores com obras dedicadas ao público infantojuvenil. Mas, o projeto cresceu para um livro impresso e depois ganhou interpretação dramática”, conta o jornalista Felippe Aníbal, coautor do Bibliotecarte, ao lado de Daniélle Carazzai.

 

E assim, se transformando ao longo do caminho, o Bibliotecarte se tornou um material multimídia, totalmente inclusivo e fiel à sua proposta, de estar ao alcance de todos. Com versão em libras, o material pode ser acessado por deficientes visuais e por meio de um QR Code o e-book pode ser baixado para ser ouvido em plataformas digitais.

 

Ao todo, 63 autores nacionais, com diferentes perfis e momentos de carreira foram ouvidos e selecionados para o projeto. “As histórias se entrelaçam, é muito interessante ver como isso acontece, apesar das diferentes visões de mundo de cada autor. O resultado é uma literatura muito rica, notadamente infantil, mas não infantilizada”, explica a coautora Daniélle Carazzai, que é jornalista, escritora e artista visual.

 

Autores indígenas, negros, mulheres, homens. A temática racial presente na linguagem desde a literatura voltada à primeira infância. Inclusão, de fato. “A valorização da nossa história, da nossa língua, lendas e costumes populares tem como protagonista principal os escritores nacionais.

 

Sendo a literatura uma poderosa ferramenta de transformação ao criar identificação com os leitores, o incentivo a práticas literárias torna-se objeto necessário na idealização de projetos culturais”, afirma a coordenadora geral do Bibliotecarte, Carolina Montenegro.

 

“Democratizar o acesso à leitura para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Este é o princípio que norteia o Bibliotecarte, projeto que nasce da ideia de aproximar os estudantes do universo das histórias contadas pelas páginas dos livros. Nós acreditamos na educação e no papel transformador que ela desempenha na vida das crianças e dos jovens”, afirma Rodolfo Schneider, gerente de captação de recursos e marketing do Marista Escolas Sociais.

 

Formação de leitores 

A formação de leitores é o grande objetivo do Bibliotecarte. E nada melhor do que colocar as crianças em contato com grandes nomes da literatura, para que essa mágica aconteça. “Ter contato com os livros desde muito cedo faz a diferença, comigo foi assim. Já pequena eu enxergava os ambientes de forma literária e isso eu devo a minha formação como leitora”, conta a mineira Julia Medeiros, autora de A Avó Amarela, livro vencedor do Prêmio Jabuti de 2019 na categoria infantojuvenil.

 

A autora acredita que o alcance existencial da literatura é imenso. “Ele ultrapassa o humano, nossa percepção de existir, com outros seres, em algum tempo, em algum lugar. Com os livros é possível existir e perceber o mundo literariamente”, afirma.

 

Para Gilles Eduar, autor de Brasil Sem Palavras, a leitura é uma experiência de conexão entre pais e filhos, um momento de sintonia que deve ser incentivado desde a primeira infância. “Quando eu comecei a ler para o meu filho ele tinha meses e já estava interessadíssimo. É importante os pais lerem e terem essa troca de energia, com o livro, estarem juntos com o bebê, olhando para a mesma direção. É um momento que transcende a leitura, de puro amor”.

 

Vencedora do prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2017 com Calu, Uma Menina Cheia de Histórias, a escritora baiana Cássia Valle entende que é preciso discutir questões sociais, culturais e raciais com o público infantojuvenil. “Mais do que formar leitores, estamos formando cidadãos. Temos uma grande responsabilidade social na literatura porque as crianças reproduzem comportamentos que veem em casa, nos livros, na vida”, conta a autora, cujo próximo livro vai debater o racismo na infância.

 

 

Autores consagrados

 

Escritores com muitos anos de estrada também fazem parte do Bibliotecarte, dentre eles os consagrados José Roberto Torero, Antônio Prata, Adriana Carranca, autora de “Malala, A Menina Que Queria Ir Para A Escola”, Patrícia Engel Secco, que tem mais de 60 obras publicadas, e Ignácio de Loyola Brandão.

 

“Foi muito legal conversar com ele, que é meu autor favorito. A história do Ignácio de Loyola Brandão com o livro infantojuvenil é muito bonita, é um pedido de perdão paro o avô. Saber os bastidores, ter essa relação íntima com a infância dos autores, até porque todos os livros têm um quê de autobiográficos”, conta Daniélle Carazzai sobre o que mais a encantou no projeto.

 

Para o coautor Felippe Aníbal a parte mais gratificante do Bibliotecarte foi entrar em contato, quase que por acaso, com um dos responsáveis por sua formação como leitor, ao conversar com Marco Antonio Hailer, autor de “ALP – Análise, Linguagem e Pensamento”. “Esse foi o livro que ajudou a me formar como leitor e agora eu faço parte de um projeto que transcende o aspecto profissional, contribuindo para a formação de futuros leitores, reencontrando esse autor”, conta.

 

A escritora Giovana Madalosso, autora de Autos e Baixos, chegou ao universo infantojuvenil por meio da filha. “Ela começou a achar a grama do vizinho sempre mais verde e pensei em contar uma história falando sobre isso. Usei situações divertidas, com animais, mostrando que para a centopeia pode ser muito legal ter vários pés para andar mais rápido, mas também pode ser um desafio pensar em quantos sapatos precisa ter, por exemplo”, conta a curitibana que é apontada como um dos nomes mais relevantes da literatura contemporânea brasileira. Esse é o espírito do Bibliotecarte, um projeto feito e pensado para despertar o interesse pelo pensar. E que ele esteja ao alcance de todos.