A Netflix estreou a produção Beasts of No Nation, seu primeiro longa-metragem para cinema. Dois dias antes, seu CEO, Reed Hastings, e seu diretor de conteúdo, Ted Sarandos, anunciaram a intenção de investir em jornalismo nos próximos anos. Essas mudanças podem representar o início de mudanças maiúsculas no mundo cinematográfico e do noticiário.

 

O Netflix é uma das empresas mais inovadoras do momento, não apenas pela eficiência e simplicidade de seu produto, mas porque, graças a elas, conseguiu modificar a maneira como as pessoas veem televisão. Ela popularizou o conceito de vídeo sob demanda em uma interface simples e presente em todo tipo de plataforma tecnológica, a um preço justo.

 

A Netflix deu ao consumidor a capacidade de escolher o que assistir, na hora que quiser e com o dispositivo que preferir, o que fica mais evidente nas séries, cujos capítulos de uma temporada são oferecidos todos de uma só vez, e não mais um por semana. Dessa forma, se o consumidor quiser, pode assistir a todos na sequência. Pode parecer uma bobagem, mas essa possibilidade coloca em xeque o conceito de grade de programação, algo sobre o qual se monta os modelos de negócios das emissoras de TV abertas e por assinatura

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“Beasts of No Nation” (sem título em português) estreou em apenas 31 salas independentes nos EUA (nenhuma no Brasil). Isso é insignificante em um país com cerca de 40 mil salas de cinema. Não se trata de um filme ruim: pelo contrário, “Beasts” traz um retrato cru e contundente do flagelo das crianças-soldado na África, elaborado meticulosamente para tentar abocanhar prêmios importantes, inclusive algum Oscar.

 

Mas então por que tão poucos endereços estão exibindo a produção original da Netflix?

 

Quando uma produção é lançada nos cinemas, são exigidos pelo menos 90 dias de diferença, após a estreia nas salas, para um filme chegar a qualquer outra plataforma ou mídia, temendo a canibalização das bilheterias. A Netflix acha que isso pode ser mudado e decidiu lançar o filme em sua plataforma no mesmo dia da estreia nos cinemas. Os grandes conglomerados de exibição, como Cinemark e UCI, acham que não. Por isso, boicotaram “Beasts” em massa.

As exibidoras podem argumentar que a Netflix está querendo acabar com o embargo, que sempre existiu. Isso é uma visão míope e protecionista, de alguém que quer matar no peito um tsunami que se aproxima.

O consumidor deve ter a escolha final. E isso significa, nesse caso, a Netflix oferecer logo os filmes e as salas de cinema continuarem a oferecer uma experiência diferenciada.