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Durante a estrondosa recepção do documentário comemorativo sobre os direitos da deficiência “Crip Camp” (Colônia de Férias dos Aleijados, em tradução livre) no Festival de Cinema de Sundance, a manifestação mais forte ocorreu quando a defensora dos direitos das pessoas com defciência Judith Heumann, uma das principais personalidades do filme, subiu ao palco.

Movimento pelos Direitos das Pessoas com Deficiência é destaque no Festival de Cinema Sundance 5

“O barulho vindo da plateia parecia um avião a jato decolando”, disse Jim LeBrecht, que co-dirigiu o filme com Nicole Newnham, na manhã seguinte à estréia do filme.

Mesmo em uma noite em que “Miss Americana” de Taylor Swift também estreou, “Crip Camp” causou alvoroço no festival de Park City.

O filme começa como uma lembrança nostálgica de Camp Jened, uma colônia de férias de verão para adolescentes com deficiência no interior de Nova York que, antes de fechar em 1977, era organizado por hippies com o mesmo espírito da vizinha Woodstock.

Para os participantes da colônia que tinham síndrome pós-polio, paralisia cerebral e outras deficiências, Jened era uma utopia de aceitação e espírito comunitário. E isso ajudou a desencadear um movimento. “Crip Camp” relata quantos dos que foram para Jened – incluindo Heumann, sobrevivente da poliomielite, e LeBrecht, que nasceu com espinha bífida – passaram a desempenhar papéis de destaque no movimento pelos direitos das pessoas com deficiência, culminando na Lei dos Americanos com Deficiência dos anos 90 (ADA).

“Crip Camp” conta a história de uma luta de décadas pelos direitos civis, que recebeu menos atenção do que outras lutas do século 20 pela equidade. Os criadores de “Crip Camp”, o segundo filme apoiado pela Higher Ground Productions, produtora de Barack e Michelle Obama, acreditam que o filme pode dar um impulso ao movimento.

“Espero que este filme desperte o interesse por outras histórias”, disse Heumann, cuja vida na defesa dos direitos das pessoas com deficiência inclui uma ação para se tornar a primeira professora usuária de cadeira de rodas em Nova York, liderar  uma manifestação histórica em 1977 e atuar como consultora especial em direitos das pessoas com  deficiência no Departamento de Estado americano. “Essas histórias estão aí pra serem contadas.”

Mas, por segundo qualquer estatística, histórias de pessoas com deficiência são as menos representadas no cinema e na televisão. No ano passado, o relatório anual de desigualdade da USC Annenberg constatou que, dos 4.445 personagens dos filmes mais populares de 2018, apenas 1,6% tinham deficiência.

Os números do censo dos EUA estimam que 27,2% dos americanos têm algum tipo de deficiência.

Um estudo de 2019 da Ruderman Family Foundation descobriu que cerca de metade das famílias norte-americanas são a favor de representações autênticas de atores com deficiência. No entanto, Hollywood, onde muitos vilões ainda costumam apresentar deformidades, tem uma longa história de representações desfavoráveis, estereotipadas ou falsas de deficiência.

“Aprendemos muito sobre as pessoas ao nosso redor no cinema e na televisão e se o que você está vendo são apenas histórias sobre pessoas sofrendo tragédias – como o filme ‘Million Dollar Baby, em que a protagonista pedia Por favor, me mate. Por favor, por favor. ‘- ou o tipo de história de superação, que às vezes chamamos de ‘super-deficiente’, nenhuma dessas pessoas representa nem reflete a comunidade em geral”, disse LeBrecht, designer de son baseado em Berkeley, Califórnia.

Heumann, LeBrecht e Newnham esperam que “Crip Camp” despertem conversas sobre como o cinema e a mídia promovem impressões falsas sobre as pessoas com deficiência.

“É preciso haver uma mudança radical no que acontece na mídia”, disse Heumann, que escreveu sobre representação da deficiência para a Ford Foundation. “Aqui em Sundance, estou em uma sala com centenas e centenas de progressistas que se orgulham de serem progressistas, que se orgulham de apoiar a diversidade. E o número de pessoas que dizem ‘Nunca tinha ouvido dalar nisso’, é enorme. E não é a primeira vez que vejo isso acontecer”.

“Crip Camp” já provocou algumas mudanças. LeBrecht, que participou de festivais Sundance anteriores, pediu que o festival melhorasse a acessibilidade. Antes, ele não conseguia entrar no salão de cineastas do festival porque não havia elevador. O Sundance anunciou recentemente que, em parceria com a Ruderman Family Foundation, forneceria mais recursos de acessibilidade para os participantes com deficiência e programaria mais filmes com pessoas com deficiência.

Newnham disse que haverá uma campanha de lançamento do filme no final deste ano na Netflix que promete abrir a discussão para várias questões. A mudança necessária vai muito além da acessibilidade, disse. Trata-se de reprogramar como as pessoas sem deficiência pensam sobre as pessoas com deficiência.

“Estamos empolgados com o fato de o filme estar sendo visto como uma celebração da cultura e do orgulho das pessoas com deficiência, e sentimos que isso pode trazer um efeito muito positivo”, disse o produtor e diretor de documentário vencedor do Emmy.

Veterano dos altos e baixos do ativismo, Heumann sabe que a mudança ocorre lentamente. E ela continua frustrada com a falta de progresso do movimento.

“Pra dizer a verdade, fico muito zangada com o que vem acontecendo”, disse Heumann.

“Frequentemente, precisamos moderar nossos pensamentos e comentários, porque as pessoas não querem necessariamente ouvi-los”, acrescentou ela. “As pessoas precisam estar em um determinado estado de espírito para estar dispostas a ter conversas difíceis”.

Mas “Crip Camp”, ela admitiu, poderia ser um novo começo para compreender como a deficiência é entendida na tela e fora dela.

“Seja quem for”, disse Heumann, “temos a capacidade de promover mudanças”.

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