KISS, por que já deveria ter acabado? 9

No último dia 19 de setembro, a lendária banda norte-americana, KISS, anunciou a sua derradeira turnê, batizada de “End of the Road World Tour”. É bem verdade que em 2000, à época com a formação clássica, a banda já havia anunciado uma turnê de aposentadoria chamada “The Farewell Tour”, dois anos depois, já sem o mítico guitarrista, Ace Frehley, a turnê não se confirmou como de despedida, não se sabe se mudaram de ideia no meio do caminho ou se a “suposta” última turnê era última mesmo ou se foi um golpe de marketing, o que levou muitos fãs a duvidarem se esta turnê de agora é mesmo de despedida ou se é mais um golpe de marketing. Não esqueça que estamos falando de Gene Simmons e Paul Stanley, talvez os artistas de rock n’ roll que mais souberam utilizar o marketing em seu favor, com produtos licenciados do mais variados tipos, de camisinhas a caixões. Porém, outra pergunta mais importante veio à minha cabeça, será que já não passou da hora do KISS acabar?

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Sejamos sinceros, a banda já não passa por sua fase mais criativa há muito tempo. É inegável que o KISS dos últimos anos está longe de ter feito algo relevante, o último álbum da banda que fez algum burburinho foi “Psycho Circus”, de 1998, mas mesmo nessa época, a criatividade não era a mesma de antes, tanto é que, de música marcante, só ficou a faixa-título do álbum, é muito pouco para uma banda que em seus tempos áureos chegou a fazer entre três e quatro clássicos em álbuns como “Destroyer”, “Love Gun” e “Hotter Than Hell”. “Sonic Boom” (2009) e “Monster” (2012) estão longe de serem álbuns ruins mas não acrescentam em absolutamente nada ao repertório, até álbuns da época sem máscara marcaram mais, “Lick It Up” (1983) com a faixa-título e “Creatures of the Night” (1982) com a faixa-título e “I Love It Loud”. Os dois novatos têm uma sonoridade muito parecida com “Psycho Circus” e não é porque são da mesma banda, simplesmente porque a banda repetiu a mesma fórmula.

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Gene e Paul já não tem mais o mesmo gás de antigamente. Tudo bem que estamos falando de dois idosos de 69 anos (Gene) e 66 anos (Paul) mas isso não seria motivo mais que suficiente de já terem parado? Paul há um tempo teve um “apagão” vocal em meio à turnê, inclusive no show do “Monsters of Rock” de 2015 em São Paulo, isso já se vão 3 anos de Paul envelhecendo e o tempo é inclemente quando você já entrou na 3ª idade, mesmo pra quem, conhecidamente sempre se cuidou, como o “Starchild”. O estilo vocal dele sempre exigiu muito de potência nos agudos, que sempre foram sua marca registrada, muito diferente do estilo vocal de Gene que sempre teve uma linha mais grave e que tende a ter uma longevidade maior. É deprimente ver lendas como Paul Stanley e David Coverdale do Whitesnake tocando por aí e nitidamente longe de suas melhores formas vocais, Coverdale talvez esteja ainda pior que Paul.

E os planos que Paul e Gene tinham de o KISS continuar mesmo sem eles? Eu, particularmente, sempre fui contra isso, pra mim o KISS com as máscaras de “The Demon”, “Starchild”, “Catman” e “The Spaceman” sempre foram Gene Simmons, Paul Stanley, Peter Criss e Ace Frehley, respectivamente. De 2004 pra cá, Eric Singer assumiu a máscara do “Catman” e Tommy Thayer a do “Spaceman”. Tommy era road de Ace e tocava em uma das principais bandas cover do KISS, ou seja, ele só faz emular Ace, mesmo as linhas de guitarra mais recentes, são de estilo muito parecidas com as de Ace, a meu ver, isso é injusto com o próprio Tommy, com Ace e desrespeitoso com os fãs. Já Eric tem um estilo de cantar e de tocar totalmente diferentes dos de Peter, talvez o estilo dele se assemelhe mais ao do seu xará e ex-baterista da banda, Eric Carr, que usava a máscara de “The Fox”, o que me leva a perguntar, por que Singer não usa a máscara de Carr? Ou melhor, já que Paul e Gene querem tocar mascarados ainda, por que não criaram novas máscaras para Tommy e Eric? Assim como fizeram quando Eric Carr e Vinnie Vincent entraram na banda na década de 80, em que Carr tinha a máscara de “The Fox” e Vinnie usava a máscara de “The Egyptian”. Esse “novo” KISS, se vier a acontecer, seria com as máscaras clássicas? Ou usariam novas máscaras no mesmo estilo? Em ambos os casos, eu continuo sendo contra um KISS sem nenhum dos membros clássicos, transformaria uma das bandas mais icônicas da história do rock em um reles caça-níquel, vulgarizaria a sua imagem e os seus clássicos.

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Não me leve a mal, não ache que sou hater da banda, muito pelo contrário, o KISS sempre foi a minha banda favorita, que ajudou a moldar o meu gosto musical e que me acompanha desde os 13 anos de idade, porém, é extremamente incômodo pra mim ver meus principais ídolos da música se arrastando pelo palco, lançando álbuns sem inspiração, somente em busca de mais algum tostão que, no fim das contas, não fariam a menor diferença nas fortunas que Gene e Paul juntaram durante os anos de carreira. Para mim, o momento certo para a banda ter parado, teria sido na turnê “The Farewell Tour”, ali tínhamos os membros clássicos, eles ainda tinham gás pra queimar, vinham de um álbum de inéditas de um bom nível, mesmo sabendo aí que não teríamos o sensacional “Alive IV” (2004), que no final das contas, não faria a menor diferença na discografia da banda. Sim, pra mim é triste pensar em um rock n’ roll sem o KISS mas vê-los transformando seu legado em caça-níquel, é mais triste ainda. Inclusive, na minha opinião, com o final do KISS, pode sepultar o rock n’ roll, o último dos seus gigantes terá morrido e nada de relevante, foi lançado para manter o estilo vivo.

 

Texto do colunista Illo Schaun, nerd, advogado, legender nas horas vagas, roqueiro, leitor voraz de HQ e livros, viciado em filmes e séries, sonha em ser o Batman e coleciona diversas versões de batmóveis.
Twitter: @illods