Crítica: “Bohemian Rhapsody”

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Queen é uma das minhas bandas favoritas, cresci ouvindo as músicas deles, considero Freddie Mercury o melhor cantor que já existiu, não só do rock mas da música. Quando vi o anúncio do desenvolvimento de um filme sobre a trajetória do grupo, principalmente, sobre o vocalista, fiquei ansioso para saber o que poderia sair, sendo que nessa época, Sasha Baron Cohen (“Borat”) era o mais cotado para dar vida à Mercury nas telonas. Alguns anos se passaram, o projeto parecia ter sido esquecido, até que o ator Rami Malek (“Mr. Robot”) é oficializado como o intérprete de Freddie Mercury. Eis que o filme foi lançado e eu, como grande fã da banda, não poderia deixar de assistir no cinema. Pode ficar tranquilo(a) que não tem spoilers nessa crítica.

Um dos pontos altos do filme é a escolha do elenco, sobretudo na escolha do quarteto Rami Malek (Freddie Mercury), Ben Hardy (Roger Taylor), Joseph Mazzello (John Deacon) e Gwilym Lee (Brian May). Mais do que a aparência física impressionante, sobretudo de Mazzello e Lee, a ótima atuação dos 4 é que segura boa parte do filme. O gestual de Rami Malek e o timbre de voz utilizado para falar os diálogos foram de uma semelhança impressionante com Freddie, o que era bastante difícil porque o cantor sempre foi conhecido por movimentos muito marcantes e ambíguos sexualmente falante, então Malek teria de transitar numa linha tênue entre o exagero e o caricato e posso te dizer, ele foi fantástico. Sobretudo nas cenas de shows, parecia que eu estava assistindo a Freddie no palco novamente, ele soube capturar a imponência do cantor e ao mesmo tempo soube capturar a fragilidade e a solidão quase melancólica de Freddie em sua vida particular, ele foi brilhante. Outro que teve participação destacada no filme, mesmo que menor que Malek, foi Gwilym Lee, o intérprete de Brian May, muitas vezes eu me perguntava se não era o próprio Brian se interpretando, tamanha é a semelhança física entre os dois. Quem também merece destaque é Lucy Boynton que interpreta Mary Austin, a quem Freddie disse a vida toda que era sua esposa e deixou metade de sua fortuna (isso não é spoiler, aconteceu de verdade). Lucy tem uma presença delicada, porém marcante em tela, ela faz um contraponto perfeito ao visual e gestual extravagante e quase andrógino de Freddie (Malek).

Outro ponto que segurou muito bem o filme foi a trilha sonora, também não tinha como ficar ruim uma trilha sonora em que 98% dela é composta por músicas do Queen, sobretudo os seus maiores clássicos. Queen sempre foi uma das bandas mais criativas do rock, incorporando desde elementos da música disco a ópera e música clássica, sempre com qualidade, sem parecer forçado ou artificial, explicado isso, você percebe o primor do tratamento do som do filme, as músicas se encaixam perfeitamente no momento que são exibidas em tela, sem parecerem deslocadas ou forçando só para dizer que tal música esteve no filme. Outra parte muito positiva da direção musical da película, é nas celas em que Malek precisa fingir que é ele quem está cantando, a sincronização é perfeita, o gestual, tudo casa com a música que está tocando no filme.

Um fato interessante do filme é que, para quem não sabe, o diretor Bryan Singer foi despedido ao longo da gravação do filme, devido a problemas com o elenco, ele chegou a jogar um objeto em Malek, foi substituído por Dexter Fletcher. Apesar da mudança de direção, não vimos aqui o efeito “Liga da Justiça”, em que são dois tons conflitantes e completamente diferentes, até porque o diretor que assumiu não é um incompetente como o que assumiu à película da DC.

Para não falar que eu achei o filme perfeito, ele teve alguns erros que, na minha opinião, prejudicaram um pouco. O primeiro ato do filme foi muito atropelado, diálogos eram interrompidos no meio e, ou ficavam sem continuidade, ou o desfecho daquilo você só sabia quase meia-hora depois, quando, nem se lembra do que foi dito antes, assim como várias situações que poderiam ter mais tempo dedicado a elas, passaram de forma atropelada, como o começo da banda já como Queen, a impressão que tive em alguns momentos é quando estavam gravando, no meio da cena alguém dizia que precisavam cortar para dar caber no filme, coisa que não acontece no segundo e, principalmente, no terceiro ato. Eu acho que “pintaram” a personalidade de Freddie com cores muito fortes, sempre que se tem alguma situação de estresse causada por ele, era relevada, a sensação que tive em alguns momentos é que todos (inclusive os colegas de banda) o consideravam quase como uma divindade, sempre que se tem um atrito na banda é resolvido em menos de 30 segundos com eles compondo uma música, como todos sabem que não funciona assim na vida real. Mais uma coisa que me incomodou um pouco, é a necessidade do filme em forçar a vilania no personagem Paul Prenter (Allen Leech) para justificar tudo de ruim que acontecia com Freddie no filme, foi um artifício preguiçoso usado para justificar de maneira rápida boa parte das coisas que acontecem no filme e para resolvê-las também, quando o Paul da vida real não era exatamente esse vilão todo. Outro fato que me gerou um pouco de incômodo foi a presença de Mike Myers no filme como Ray Foster, não por Myers, que eu sou um grande fã desde a adolescência, mas por ser um personagem absolutamente inútil, ele não existiu na vida real, foi livremente inspirado no dono da gravadora e só está ali para fazer uma referência a uma piada do filme “Quanto Mais Idiota Melhor”, protagonizado por Myers, e que se você não lembrar do filme, essa referência passará despercebida, foi um tempo em tela que poderia ter sido gasto com outro personagem importante da história da banda.

Eu até concordo com as críticas de que o enredo do filme é superficial mas isso, para mim, não atrapalhou a minha experiência, bem como a manipulação de alguns fatos que foram distorcidos para “caberem” no filme e que foi acusada de novelização da história, muita gente pedindo que fosse um filme +18 para mostrar mais afundo os problemas de Freddie, a sua bissexualidade, a sua luta contra a AIDS, seu envolvimento com as drogas. Não é essa a proposta do filme, ao que ele se propõe, que é a exaltação da obra de Freddie, do artista que ele foi, mostrar às novas gerações quem era, o filme acerta em cheio, é uma cinebiografia, não um documentário. Eu não queria ver um Freddie decrépito, definhando e morrendo de forma melancólica, eu queria era ver exatamente o que eu vi, aquela figura emblemática, imponente que, apesar dos seus pouco mais de 1,70 m de altura e sua marcante arcada dentária protuberante, no palco se transformava em um gigante capaz de dominar centenas de pessoas somente com sua voz e seu carisma.

Sugiro que você vá assistir a esse filme como um musical, não como uma fonte para descobrir a história da banda. É um filme muito divertido, delicado, que trata passagens polêmicas da vida de Freddie com zelo e respeito à figura emblemática que ele sempre foi. Levei meus pais para assistirem comigo, se gosto de Queen, devo a eles e vê-los se empolgando e se emocionando com a película, já valeram a pena pelo ingresso. Me emocionei em diversas partes, ri em várias outras. É um belo filme para assistir em família, com diversão na dose certa, emoção na dose certa, drama na dose certa e muito Queen para ser exaltado da forma como eles e, sobretudo, Freddie Mercury, merecem. Seguramente é um dos melhores filmes que assisti no ano de 2018, saí com vontade de assistir outras vezes e como Freddie gritava a plenos pulmões: “THE SHOW MUST GO ON” (“O Show tem que continuar”).

Texto do colunista Illo Schaun, nerd, advogado, legender nas horas vagas, roqueiro, leitor voraz de HQ e livros, viciado em filmes e séries, sonha em ser o Batman e coleciona diversas versões de batmóveis.
Twitter: @illods

 

2018-11-05T03:04:26+00:00