A Apple está preparando uma nova plataforma de software que tornaria o iPhone um controle remoto para lâmpadas, sistemas de segurança e outras utilidades domésticas como parte de uma empreitada rumo à chamada “internet das coisas”.

A Apple planeja atacar rivais como Google e Samsung e causar agitação no mundo da tecnologia de casas inteligentes na segunda-feira que vem, dia 2, durante sua conferência para desenvolvedores Worldwide Developer Conference, em San Francisco, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

Isso reforçaria a visão de algumas pessoas do Vale do Silício, de que a automação de casas vista na ficção, como na série animada “Jetsons”, é a próxima barreira tecnológica, já que o crescimento nas vendas de smartphones mostra desaceleração em mercados desenvolvidos.

O movimento da Apple vem após uma aquisição no valor de US$ 3,2 bilhões feita pelo Google da empresa Nest Labs, fabricante de termostatos conectados à internet e alarmes de fumaça, e após a tenra estreia da Samsung no segmento de “smart home” com geladeiras, máquinas de lavar e TVs que podem ser controladas pelos smartphones e pelos relógios que vende.

O sistema integrado da Apple tornará mais fácil a configuração e o controle de dispositivos de casa inteligente. As lâmpadas de uma casa, por exemplo, podem se acender sozinhas assim que o dono entra na casa, detectando um sinal sem fio enviado por um iPhone. Um sistema do tipo foi esboçado em uma patente registrada pela Apple em novembro do ano passado.

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Imagem de divulgação do app de iPhone do sistema de iluminação Philips Hue
Imagem de divulgação do app de iPhone do sistema de iluminação Philips Hue

O sistema de casa conectada dará aos consumidores da Apple mais razões para comprar diversos dos aparelhos da família iOS (sistema que usa o iPhone e o iPad), já que eles usariam seu dispositivo móvel em conjunto com o sistema Apple TV –cuja versão atualizada é aguardada para este ano– para controlar outros aparelhos de casa.

A Apple está em conversas com um seleto grupo de outros fabricantes de dispositivos cujos produtos de “smart home” serão certificados para trabalhar com a plataforma e serão vendidos no varejo.

O esquema funcionará de maneira semelhante ao programa “Made for iPhone”, etiqueta dada em fones de ouvido, alto-falantes e outros acessórios registrados, mas com uma nova marca e um novo logotipo. A Apple poderá também prover checagens e garantias de que os produtos novos não serão vulneráveis a ataques de hackers.

A Companhia de Cupertino estaria fortemente inclinada a enfatizar o caráter privativo do sistema de casa inteligente, disse uma pessoa familiarizada com os planos da Apple, dada a grande sensibilidade sobre o acesso que têm empresas tecnológicas a informações pessoais, em meio a revelações de espionagem dos EUA.

A Apple considera a privacidade um elemento-chave sobre o concorrente Google, disse a pessoa, já que o Google depende de propaganda direcionada como sua principal fonte de faturamento. Em um documento do ano passado, o Google disse que estava preparando um “futuro multidispositivo” onde “nós e outras empresas poderíamos mostrar anúncios e outro tipo de conteúdo em geladeiras, painéis de carro, termostatos, óculos e relógios.”

Um porta-voz da Apple recusou-se a comentar. É sabido que a Apple pode mudar no último minuto seus planos para a conferência que ocorre anualmente e cuja versão deste ano começa na semana que vem.

Enquanto busca novas formas de crescer, a Apple lançou no ano passado o CarPlay, sistema que permite que motoristas exibam aplicativos do iPhone em uma tela do painel de seu carro, e o iBeacon, sistema de localização dentro de interiores usado por comerciantes, organizadores de evento e publicitários para enviar mensagens conforme a localização de uma pessoa.

O CarPlay, o iBeacon e o antigo AirPlay usam o sistema Bluetooth para conectar o iOS a outros aparelhos próximos, não fabricados pela Apple.

Sandro Campardo/Efe
Sistema CarPlay, que exibe apps de iPhone em uma tela do painel do carro
Sistema CarPlay, que exibe apps de iPhone em uma tela do painel do carro 

Um conjunto semelhante de tecnologias será estendido em breve a outras partes da casa, como sistemas de segurança, iluminação e eletrodomésticos –talvez com a adição de um novo componente: o NFC (tecnologia de comunicação de campo próximo presente nos celulares mais novos). Analistas esperam que o NFC possa ser embutido no próximo iPhone, como parte dos planos que estão nos rumores de um novo sistema de pagamento da Apple.

As lojas físicas da Apple também terão papel de protagonista nos planos da empresa para a “internet das coisas”. Sua nova diretora, Angela Ahrendts, juntou-se à fabricante do iPhone, vinda da grife Burberry, no começo deste mês com poderes para reformar a presença on-line e a nos centros comerciais da empresa.

As lojas da Apple já vendem diversos produtos de “smart home” na faixa de preço de entre US$ 50 e US$ 250 (R$ 111 e R$ 555), incluindo termostatos da Nest, câmeras sem fio Dropcam, lâmpadas Philips Hue e interruptores Belkin WeMo, cada um controlado por um app de iPhone separado.

Como o mercado de casa conectada ainda é muito incipiente, a Apple pode enfrentar dificuldades para convencer os consumidores e os especialistas de que devem usar sua plataforma. Mas a promessa da Apple de que seus produtos “simplesmente funcionam” quando estão sendo usados em conjunto, graças à sua próxima integração de hardware, software e serviços de nuvem, poderia dar à dona do iPhone uma vantagem sobre os rivais.